Perfeccionismo pode causar ansiedade?
Perfeccionismo e ansiedade podem estar relacionados. Entenda como o medo de errar, a autocobrança e padrões elevados podem aumentar o sofrimento emocional.

Você revisa uma mensagem várias vezes antes de enviar. Pensa muito antes de tomar uma decisão. Fica preocupada com a possibilidade de cometer um erro. Quando termina alguma coisa, procura imediatamente aquilo que poderia ter feito melhor.
Por fora, isso pode parecer apenas responsabilidade ou vontade de fazer as coisas bem.
Por dentro, porém, pode existir uma pressão constante para não errar.
Perfeccionismo e ansiedade podem estar relacionados, principalmente quando a busca por fazer bem deixa de ser uma escolha e começa a funcionar como uma obrigação.
Isso não significa que toda pessoa perfeccionista terá ansiedade ou desenvolverá um transtorno de ansiedade. O perfeccionismo possui diferentes características e nem todas elas estão associadas da mesma maneira ao sofrimento psicológico.
O problema tende a aparecer quando existe uma combinação de padrões muito elevados, autocrítica intensa, medo de falhar e dificuldade de considerar o próprio desempenho suficiente.
Pesquisas brasileiras sobre o perfeccionismo encontraram uma relação particularmente importante entre as chamadas preocupações perfeccionistas e sintomas de ansiedade, depressão e estresse. Essa dimensão envolve justamente aspectos como preocupação com erros e sensação de não corresponder às próprias expectativas (ROCHA et al., 2024).
Quando fazer bem deixa de ser suficiente
Imagine que você precisa apresentar um trabalho.
Uma pessoa pode querer se preparar, organizar o conteúdo e fazer uma boa apresentação. Naturalmente, pode sentir um pouco de ansiedade antes daquele momento.
Mas, quando existe uma cobrança perfeccionista intensa, os pensamentos podem ser diferentes:
“Eu não posso errar.”
“Preciso saber responder qualquer pergunta.”
“Se eu travar, todo mundo vai perceber.”
“Se não ficar excelente, significa que eu não sou boa nisso.”
Nesse caso, o problema não está apenas na vontade de fazer uma boa apresentação.
Existe uma ameaça por trás do erro.
Errar deixa de significar simplesmente “algo não saiu como eu gostaria” e pode começar a significar “eu fracassei”, “não sou competente” ou “as pessoas vão me julgar”.
E é justamente essa interpretação que pode aumentar a ansiedade.
O ciclo entre perfeccionismo e ansiedade
Quando você acredita que precisa evitar qualquer possibilidade de erro, é natural tentar aumentar o controle.
Você revisa mais.
Planeja mais.
Pensa em todas as possibilidades.
Tenta prever aquilo que pode acontecer.
Busca garantias de que tomou a decisão correta.
No início, esses comportamentos podem até trazer uma sensação de segurança.
O problema é que você também pode começar a aprender que só consegue enfrentar determinadas situações quando tem certeza de que tudo está sob controle.
E a vida raramente oferece esse tipo de certeza.
Por isso, quanto maior a necessidade de garantir que nada dará errado, maior pode ser a ansiedade diante das situações que você não consegue controlar.
O perfeccionismo também pode fazer você evitar
Existe uma ideia de que pessoas perfeccionistas estão sempre produzindo muito.
Nem sempre.
Às vezes, o perfeccionismo aparece justamente na procrastinação.
Você adia uma tarefa porque acredita que precisa fazê-la perfeitamente. Evita começar porque não sabe se conseguirá atingir o resultado que espera. Demora para entregar porque sempre encontra alguma coisa para melhorar.
Em outros momentos, pode evitar oportunidades porque não se sente suficientemente preparada.
“Quando eu souber mais, eu tento.”
“Quando estiver mais preparada, eu começo.”
“Quando tiver certeza de que vai dar certo, eu faço.”
Só que esse momento pode nunca chegar.
A tentativa de evitar a ansiedade acaba diminuindo as oportunidades de perceber que você consegue lidar com erros, imprevistos e resultados diferentes do esperado.
Nem todo padrão elevado é um problema
Querer melhorar não é necessariamente ruim.
Ter objetivos, se dedicar e buscar qualidade pode fazer parte de uma vida saudável.
A diferença está na flexibilidade.
Você consegue adaptar suas expectativas quando necessário?
Consegue reconhecer que fez um bom trabalho mesmo encontrando pequenos erros?
Consegue descansar mesmo sabendo que ainda existem coisas para resolver?
Consegue tentar algo novo mesmo sem ter certeza de que será boa?
Consegue receber uma crítica sem transformar aquilo em uma avaliação do seu valor como pessoa?
Quando a resposta para essas perguntas é frequentemente “não”, talvez o problema não esteja apenas nas metas que você estabeleceu, mas na relação que construiu com elas.
E quando procurar ajuda?
Vale prestar atenção quando a cobrança começa a ocupar muito espaço na sua vida.
Talvez você esteja constantemente preocupada com seu desempenho, evitando situações por medo de errar, trabalhando além dos próprios limites ou tendo dificuldade de descansar.
Talvez consiga muitas coisas, mas quase nunca consiga aproveitar aquilo que conquistou.
Ou talvez esteja cansada de sentir que precisa provar o tempo inteiro que é competente, responsável, bonita, produtiva ou boa o suficiente.
Nesse caso, trabalhar o perfeccionismo não significa abandonar seus objetivos.
Significa aprender a perseguir aquilo que é importante sem precisar viver constantemente com medo de não ser suficiente.
Na psicoterapia, é possível identificar os pensamentos, regras e comportamentos que mantêm esse padrão, desenvolver formas mais flexíveis de lidar com erros e aprender a tolerar melhor a incerteza e a imperfeição.
Você pode continuar querendo fazer as coisas bem.
Só não precisa transformar cada erro em uma prova contra você mesma.
Se a necessidade de fazer tudo certo tem trazido ansiedade, culpa ou medo de falhar, a psicoterapia pode ajudar você a compreender esse padrão e construir uma relação mais saudável com suas próprias expectativas.
Referências
BONFIM, Denise da Silva et al. Associação entre a síndrome de burnout, o estilo de vida, ansiedade e perfeccionismo entre professores do ensino fundamental. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, v. 22, n. 1, p. 1815-1821, 2022. DOI: 10.5935/RPOT/2022.1.20831.
ROCHA, Luiz Fellipe Dias da et al. Uma análise de rede do perfeccionismo e da autocompaixão: implicações teóricas e práticas. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, v. 20, 2024.
SOARES, Flávio Henrique dos Reis et al. Adaptação e validação da Escala de Perfeccionismo Almost Perfect Scale-Revised para o português brasileiro. Avaliação Psicológica, v. 19, n. 3, 2020.
SOARES, Emyli de Sousa et al. Perfeccionismo e suas dimensões no contexto brasileiro. Avaliação Psicológica, 2020.
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