Como saber se sou perfeccionista?
Você se cobra demais e sente que nunca faz o suficiente? Veja os principais sinais do perfeccionismo e entenda quando ele pode afetar sua saúde emocional.

Você já terminou alguma coisa importante e, em vez de pensar “eu consegui”, começou a pensar no que poderia ter feito melhor?
Talvez você revise várias vezes aquilo que faz, tenha dificuldade de entregar uma tarefa porque acha que ainda não está bom, fique muito incomodada quando comete um erro ou sinta que precisa estar sempre melhorando.
Se isso acontece com frequência, pode existir uma relação com o perfeccionismo.
Mas ser perfeccionista não significa simplesmente gostar de fazer as coisas bem.
O perfeccionismo é um fenômeno mais complexo. Estudos brasileiros descrevem diferentes dimensões relacionadas ao perfeccionismo, incluindo a tendência de estabelecer padrões elevados para si, a necessidade de organização e, principalmente, a percepção de que existe uma distância entre aquilo que você esperava alcançar e aquilo que realmente conseguiu.
É justamente essa última parte que pode ser bastante desgastante.
Você pode fazer um trabalho muito bom e ainda pensar que poderia ter sido melhor.
Pode receber um elogio e imediatamente lembrar do único ponto que não saiu como gostaria.
Pode alcançar uma meta e, antes mesmo de comemorar, já começar a pensar na próxima.
Com o tempo, a sensação de satisfação pode ficar cada vez mais difícil de alcançar.
Alguns sinais podem ajudar você a perceber esse padrão no seu cotidiano.
Você costuma se cobrar muito quando comete erros?
Tem dificuldade de aceitar que algo está “bom o suficiente”?
Evita começar alguma coisa porque tem medo de não conseguir fazer direito?
Demora muito para terminar tarefas porque está sempre tentando melhorar algum detalhe?
Fica pensando durante muito tempo em algo que poderia ter feito diferente?
Tem dificuldade de receber críticas sem interpretar aquilo como uma prova de que não foi boa o bastante?
Sente culpa quando descansa porque acredita que deveria estar produzindo?
Compara constantemente seu desempenho com o de outras pessoas?
Se respondeu “sim” para várias dessas perguntas, isso não significa automaticamente que você seja perfeccionista ou que exista algum transtorno psicológico.
Uma lista de características não é suficiente para fazer uma avaliação psicológica. O mais importante é observar como esse padrão funciona na sua vida e quanto sofrimento ele provoca.
Também existe uma diferença importante entre ter padrões elevados e viver sob uma cobrança que nunca termina.
Você pode gostar de fazer um trabalho bem feito, buscar melhorar e se sentir satisfeita com seus resultados. Isso não significa necessariamente que exista um problema.
A dificuldade aparece quando a exigência começa a controlar suas escolhas.
Por exemplo, quando você deixa de tentar algo novo porque acredita que precisa ser boa desde o início. Ou quando prefere não entregar uma tarefa a entregá-la sabendo que poderia melhorar mais um pouco. Ou quando um pequeno erro faz você questionar todo o seu desempenho.
Nesse funcionamento, o problema não é querer fazer bem.
É sentir que precisa fazer perfeitamente para poder se sentir bem consigo mesma.
E existe outra questão importante: o perfeccionismo pode aparecer de maneiras diferentes.
Para algumas pessoas, ele está relacionado principalmente ao trabalho e aos estudos. Para outras, aparece na aparência, nos relacionamentos, na organização da casa, na maternidade, na vida financeira ou até na forma como acreditam que deveriam lidar com as próprias emoções.
Por isso, talvez você não se considere uma pessoa perfeccionista porque não precisa que tudo esteja perfeitamente organizado.
Mas pode existir perfeccionismo na maneira como você se cobra.
A pergunta, então, talvez não seja apenas “Eu sou perfeccionista?”.
Pode ser mais útil perguntar:
“Eu consigo reconhecer quando algo está bom, mesmo que não esteja perfeito?”
“Eu consigo cometer um erro sem transformar esse erro em uma crítica sobre quem eu sou?”
“Eu consigo descansar sem sentir que estou falhando?”
“Eu consigo estabelecer metas sem transformar cada resultado em uma avaliação do meu valor?”
Se essas perguntas despertam desconforto, pode ser interessante olhar com mais cuidado para a forma como você tem se tratado.
Pesquisas brasileiras também apontam a importância de avaliar o perfeccionismo de maneira adequada, considerando suas diferentes dimensões, em vez de tratá-lo como uma característica única. Existem instrumentos psicológicos adaptados e estudados para a população brasileira, como a Almost Perfect Scale Revised, que avalia dimensões relacionadas a padrões, ordem e discrepância.
Mas você não precisa fazer um teste para começar a observar esse padrão em si mesma.
Às vezes, o primeiro passo é perceber que talvez você esteja vivendo sob uma régua que nunca para de subir.
Você não precisa abandonar seus objetivos, deixar de se esforçar ou aceitar fazer tudo de qualquer jeito.
Pode ser sobre aprender que fazer bem não significa fazer perfeito.
E que seu valor não precisa ser determinado pelo quanto você consegue produzir, acertar ou realizar.
Se você percebe que a cobrança por fazer tudo certo tem causado ansiedade, culpa ou dificuldade para aproveitar a própria vida, a psicoterapia pode ajudar a compreender esse padrão e construir uma relação mais equilibrada com suas expectativas.
Referências
SOARES, Flávio Henrique dos Reis et al. Adaptação e validação da Escala de Perfeccionismo Almost Perfect Scale-Revised para o português brasileiro. Avaliação Psicológica, Campinas, v. 19, n. 3, p. 310-321, 2020.
MANSUR-ALVES, Marcela; MARTINS, Pedro S. R.; LIMA, Lucas Martins; NEUFELD, Carmem Beatriz. Almost Perfect Scale – Revised (APS-R): dados normativos para uma amostra de adultos brasileiros. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 35, n. 3, p. 589-629, 2023. DOI: 10.33208/pc1980-5438v0035n03a07.
SOARES, Flávio Henrique dos Reis et al. Perfeccionismo: aspectos teóricos e avaliação psicológica no contexto brasileiro. Avaliação Psicológica.
ROCHA, Luiz Fellipe Dias da et al. Uma análise de rede do perfeccionismo e da autocompaixão: implicações teóricas e práticas. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 2024.
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